Das Manchetes Ao Esquecimento

5 de dezembro de 2010

A comunicação de massas pode ser considerada um fator determinante para a formação da opinião pública no Brasil e logicamente no mundo. A mídia hegemonica não reflete a pluralidade de fontes e meios que sejam capazes de oferecer visões que contribuam para a formação da opinião pública. Estamos diante de um discurso único fortemente ligado à força do meio publicitário e seu poder financeiro. Tais recursos publicitários vem de empresas e corporações com fortes interesses em alterações de leis e normas que favoreceriam a ampliação dos mercados, fariam crescer seus lucros e sua influência na sociedade. Dessa forma, manifestam-se os interesses politicos que a partir da grande mídia demonstram suas ambições.

Em 2010, após a formalização das candidaturas majoritárias e a opção clara de certos grupos midiáticos por uma delas surgiram denúncias de corrupção em diversos escalões do atual governo. Foi emblemático o caso da ministra- chefe da Casa Civil , Erenice Guerra, que Segundo os institutos de pesquisa de opinião pública foi fator decisivo para um Segundo turno das eleições. Erenice substituiu Dilma Roussef na Casa Civil e foi acusada de nepotismo, tráfico de influência e corrupção ativa. Tais denúncias q estavam relacionadas a contratos entre órgãos governamentais e empresas privadas que tinham o apoio de seus filhos e parentes para obter vantagens e prolongamentos de contratos de prestação de serviço junto ao governo.

Caso Erenice: notoriedade e esquecimento

Chama a atenção que logo após o encerramento do período eileitoral esse assunto desaparece das manchetes e pouca informação é divulgada sobre o desenrolar dos fatos. Consequentemente, a assunto também perde relevância na vida cotidiana e no interesse público. Questiona-se assim o papel da mídia hegemônica na efetiva contribuição à sociedade. Mais grave ainda se torna a situação uma vez que existem fortes indicios de que as denúncias tenham vindo de grupos ligados ao próprio governo o que por si só justificaria um aprofundamento no tema por parte dos meios de comunicação.

 

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Após mais de 50 anos no poder, o atual senador José Sarney foi protagonista de um dos maiores escândalos na política brasileira no ano passado. A partir de março de 2009, o então presidente do Senado foi acusado de sonegar a propriedade de uma casa sua no valor de 5 milhões de reais. Para piorar a situação, diversos casos de corrupção e uso indevido de verba pública, incluindo passagens de avião e contas de cartão de crédito ilegais ,foram descobertos no Congresso e passaram “desapercebidos” pelo presidente da instituição. Os deslizes de Sarney foram então amplamente divulgados pela mídia.

José Sarney no Congresso

Tamanha foi a conotação negativa dos fatos apurados que diversos grupos sociais resolveram sair de sua comodidade rotineira e se posicionar perante os absurdos que eram publicados nos jornais. A partir dessa inconformidade com a situação política do país foi criado o movimento “Fora Sarney” (#forasarney), que começou no microblog Twitter e se expandiu rapidamente para as ruas. Os manifestantes exigiam o afastamento imediato do presidente do Senado, para que o ocorrido pudesse ser investigado de forma mais ética e para que se evitassem novas corrupções feitas pelo senador.

Dessa maneira, no dia 1º de Julho, grupos de todo o país se organizaram virtualmente e realizaram passeatas com o tema por todo o país. Brasília, Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo, Recife, São Luís e Macapá foram as cidades participantes desse levante populacional contra as falácias do governo. Entre os manifestantes, encontravam-se muitos jovens, mas também muitos adultos, senhores e senhoras de mais idade e até mesmo crianças, levadas pelos pais para que desde cedo já compreendessem o que é política de verdade.

A atitude do movimento “Fora Sarney” é um claro exemplo de como uma multidão pode se tornar sujeito político. O sistema do império, o qual é multifacetado e altamente mutável, é quebrado por esse tipo de manifestação. A ideia de manter e apaziguar as diferenças entre as pessoas, mantendo assim uma soberania intransponível sobre elas, é a grande estratégia do governante que atua na era do império. Ao institucionalizar que todas as pessoas são iguais mas incentivar as diferenças culturais reais que existem entre elas, o soberano cria uma válvula de escape e protege seu poder e domínio sobre a sociedade. A utilização da biopolítica coopera para esse quadro.

O que o sistema imperial não abrange é que, aos poucos, as pessoas estão se unindo em torno de um objetivo único sem nem ao menos perceberem. Com a congruência das funções trabalhistas e sociais, todos acabam procurando um mesmo fim. E a partir do momento que a população percebe isto pode então se organizar e acabar com a soberania do governante, tomando para si o governo de todos e fazendo então a verdadeira democracia.

Assim, os manifestantes que se expressaram em massa contra José Sarney praticaram esse ato de multidão: a união organizada dos cidadãos em prol de seus direitos e de sua conscientização mínima de sujeito político. Essa noção de poder adquirida pelos participantes mostra como eles entendem que tem participação política possível e que não são meros fantoches ou capachos do sistema imperial e de seu governante.

Cidadãos se manifestam no "Fora Sarney"