Após mais de 50 anos no poder, o atual senador José Sarney foi protagonista de um dos maiores escândalos na política brasileira no ano passado. A partir de março de 2009, o então presidente do Senado foi acusado de sonegar a propriedade de uma casa sua no valor de 5 milhões de reais. Para piorar a situação, diversos casos de corrupção e uso indevido de verba pública, incluindo passagens de avião e contas de cartão de crédito ilegais ,foram descobertos no Congresso e passaram “desapercebidos” pelo presidente da instituição. Os deslizes de Sarney foram então amplamente divulgados pela mídia.

José Sarney no Congresso

Tamanha foi a conotação negativa dos fatos apurados que diversos grupos sociais resolveram sair de sua comodidade rotineira e se posicionar perante os absurdos que eram publicados nos jornais. A partir dessa inconformidade com a situação política do país foi criado o movimento “Fora Sarney” (#forasarney), que começou no microblog Twitter e se expandiu rapidamente para as ruas. Os manifestantes exigiam o afastamento imediato do presidente do Senado, para que o ocorrido pudesse ser investigado de forma mais ética e para que se evitassem novas corrupções feitas pelo senador.

Dessa maneira, no dia 1º de Julho, grupos de todo o país se organizaram virtualmente e realizaram passeatas com o tema por todo o país. Brasília, Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo, Recife, São Luís e Macapá foram as cidades participantes desse levante populacional contra as falácias do governo. Entre os manifestantes, encontravam-se muitos jovens, mas também muitos adultos, senhores e senhoras de mais idade e até mesmo crianças, levadas pelos pais para que desde cedo já compreendessem o que é política de verdade.

A atitude do movimento “Fora Sarney” é um claro exemplo de como uma multidão pode se tornar sujeito político. O sistema do império, o qual é multifacetado e altamente mutável, é quebrado por esse tipo de manifestação. A ideia de manter e apaziguar as diferenças entre as pessoas, mantendo assim uma soberania intransponível sobre elas, é a grande estratégia do governante que atua na era do império. Ao institucionalizar que todas as pessoas são iguais mas incentivar as diferenças culturais reais que existem entre elas, o soberano cria uma válvula de escape e protege seu poder e domínio sobre a sociedade. A utilização da biopolítica coopera para esse quadro.

O que o sistema imperial não abrange é que, aos poucos, as pessoas estão se unindo em torno de um objetivo único sem nem ao menos perceberem. Com a congruência das funções trabalhistas e sociais, todos acabam procurando um mesmo fim. E a partir do momento que a população percebe isto pode então se organizar e acabar com a soberania do governante, tomando para si o governo de todos e fazendo então a verdadeira democracia.

Assim, os manifestantes que se expressaram em massa contra José Sarney praticaram esse ato de multidão: a união organizada dos cidadãos em prol de seus direitos e de sua conscientização mínima de sujeito político. Essa noção de poder adquirida pelos participantes mostra como eles entendem que tem participação política possível e que não são meros fantoches ou capachos do sistema imperial e de seu governante.

Cidadãos se manifestam no "Fora Sarney"

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Equador sob estado de exceção

10 de novembro de 2010

Não é de hoje que o Equador vem enfrentando problemas de instabilidade política. Com 14 milhões de habitantes, o país já havia deposto, através de protestos, três presidentes em meio a crises econômicas na última década.

Após uma tentativa do atual governante, Rafael Correa, de implantar uma medida que reduziria os bônus, ganhos e incentivos de funcionários públicos, grande parte dos quadros da Polícia Nacional se revoltou e foi às ruas, invadindo os principais quartéis e aeroportos de Quito e até mesmo o Congresso. Entretanto, a cúpula militar e todos os integrantes do governo garantiram que permanecerão fiéis ao governo vigente.

Ao visitar o principal quartel rebelado, Correa, após um tenso discurso, sofreu ataques de bombas de gás lacrimogênio, onde acabou ferido e foi levado a um hospital. “É claríssimo de onde vem essa tentativa desestabilizadora”, disse, acusando os opositores de um golpe de estado. Diante dos acontecimentos, no dia 30 de setembro, o ministro de Segurança Interna, Miguel Carvajal, declarou Estado de Exceção.

Presidente sendo carregado após atentado

A partir disso, o objetivo do presidente era abolir os direitos básicos do corpo policial para que a ordem fosse restabelecida, o que fez com que as Forças Armadas fossem encarregadas de exercer a função da polícia.

Contudo, em meio a uma situação de emergência nacional, o Estado de Exceção define que os cidadãos tenham seus direitos, definidos pela Constituição, revogados e que a concentração do poder se aproxime a de um Estado de regime totalitário. Assim, cada indivíduo se submete à condição de vida nua. Escolas tiveram suas aulas suspensas; trabalhadores foram mandados para suas casas e pelo menos dois bancos, um posto de gasolina e um mercado da cidade de Guayaquil foram saqueados. A possibilidade de uma crise econômica maior por conta de que saques bancários de grande valor possam ser feitos também preocupa o presidente do Banco Central, Diego Borja. Além disso, há o risco de que os cidadãos sejam assaltados.

Simpatizante de Correa detido por policiais

 Apesar de, incialmente, a medida ter sido definida para o prazo de uma semana, este foi prorrogado para uma data indefinida. Ainda não são previstas possibilidades de resolução do conflito que assola a nação equatoriana.